O inverno mal começou, mas o agronegócio mineiro já está de olho no que pode ocorrer a partir de setembro, quando começa a primavera. A previsão de um novo episódio de El Niño acendeu o alerta no setor. O fenômeno climático deve elevar as temperaturas e tornar as chuvas irregulares em Minas e em outros estados, justamente em um período considerado “decisivo” para culturas como café, soja e milho.

No campo, a preocupação é com o efeito direto sobre a produtividade das lavouras. Analista de agronegócio da Federação da Agricultura e Pecuária de Minas (Faemg), Ana Carolina Gomes afirma que o fenômeno pode alterar o calendário agrícola e reduzir a produção em culturas sensíveis ao clima. “No café, por exemplo, se não tem chuva na época da florada, não tem flor; se não tem flor, não tem café”.

Ela lembra que Minas é o principal produtor mundial de café arábica e que o último El Niño, entre 2023 e 2024, teve impacto severo na safra. “Tivemos perdas superiores a 20% na produção em algumas regiões, o que ajudou a pressionar os preços do café para o consumidor”.

Além do café, culturas de grãos também podem sofrer com atrasos no plantio e menor produtividade. “Se o período chuvoso demora a começar, o plantio de soja e milho atrasa, e isso muda todo o ciclo da produção”, diz.

A dificuldade, segundo ela, é que ainda não é possível medir com precisão os possíveis impactos. “Existe uma expectativa de um El Niño forte, mas ainda não sabemos o quão forte ele será nem como as chuvas vão se comportar em cada região”.

Empreendedor agroflorestal Lucas Sigefredo aposta em um sistema de produção baseado na diversidade de culturas (Divulgação/ Fazenda Sertão)
Empreendedor agroflorestal Lucas Sigefredo aposta em um sistema de produção baseado na diversidade de culturas (Divulgação/ Fazenda Sertão)

Estratégias para reduzir impactos do El Niño

Produtores têm buscado formas de reduzir os efeitos da instabilidade climática. Uma das estratégias mais citadas é a chamada agricultura regenerativa, que utiliza cobertura do solo, aumento de matéria orgânica e manejo voltado para reter umidade e reduzir erosão. “São técnicas que ajudam o solo a manter mais água e ficar mais resistente aos períodos secos. Elas minimizam os impactos, mas não eliminam o problema”, explica a analista da Faemg.

Em Brumadinho, na Grande BH, o empreendedor agroflorestal Lucas Sigefredo aposta em um sistema de produção baseado na diversidade de culturas. Na Fazenda Sertão, frutas, hortaliças, raízes e árvores são cultivadas no mesmo espaço, em um modelo conhecido como agrofloresta.

“Quando você planta várias espécies juntas, uma ajuda a outra. O solo fica coberto, retém mais umidade e as plantas sofrem menos estresse”, afirma. Ele relata que o sistema já enfrentou períodos extremos, como uma seca de mais de cinco meses sem chuva. Ainda assim, a diversidade de culturas ajudou a reduzir as perdas.

Na propriedade, cerca de 30 produtos diferentes são cultivados ao longo do ano. A estratégia, segundo Sigefredo, ajuda a reduzir riscos em períodos de eventos climáticos extremos.

Apesar da maior resi-liência do sistema agroflorestal, o produtor afirma que nenhum modelo de produção está imune aos efeitos do fenômeno. “O que muda é a capacidade de recuperação. Quem trabalha com sistemas biodiversos tem muito mais chances de se recuperar e de não ter tantos prejuízos do que quem depende de uma única cultura”.

Reflexos no consumidor

Especialistas ressaltam que os efeitos do El Niño não ficam restritos ao campo. Sigefredo conta que as consequências acabam chegando também à mesa do consumidor. “Quando a produtividade cai, fica mais difícil produzir alimentos. Isso reduz a oferta, pressiona os preços e afeta principalmente quem tem menos condição de pagar mais caro pela comida”, afirma.

Apesar disso, ainda não há uma estimativa oficial de quanto os preços podem subir nem de quando esse efeito será sentido com mais força nos mercados. A tendência, no entanto, é de que produtos como café, milho e soja fiquem mais sensíveis às oscilações climáticas nos próximos meses.

El Niño

Meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Anete Fernandes explica que o El Niño ocorre quando há um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Esse processo altera a circulação atmosférica e interfere diretamente no clima.

“No Brasil, normalmente você tem aumento das chuvas no Sul e temperaturas mais elevadas no Sudeste e Centro-Oeste”, afirma.

Segundo a meteorologista, Minas tende a sentir principalmente os efeitos ligados ao calor intenso e à irregularidade das chuvas. “O problema não é necessariamente a falta de chuva, mas a má distribuição dela. Em anos de El Niño, as precipitações costumam ocorrer em pancadas isoladas. Então, pode chover o esperado para o mês inteiro em poucos dias e depois ficar um longo período sem chuva”.

FONTE: HOJE EM DIA