Minas Gerais encerrou 2025 com mais de 83 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, ficando atrás apenas de São Paulo (149.375). Foram 83.321 licenças concedidas pelo INSS.
O dado ganha ainda mais peso com a entrada em vigor da atualização da NR-1, em maio deste ano, que passa a exigir das empresas o gerenciamento formal de riscos psicossociais. A norma obriga as organizações a identificar, avaliar e incluir fatores como estresse crônico, assédio, sobrecarga e pressão por resultados no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Com o PGR obrigatório, a ausência de documentação sobre riscos psicossociais passa a ser interpretada como indício de falha na gestão do ambiente de trabalho.
“A partir da NR-1, o ‘não sabíamos’ deixa de ser defesa. As empresas mineiras precisam entender que o custo de não agir ganhou endereço jurídico”, alerta Juliana Filizzola, especialista em escuta organizacional e governança corporativa.
O novo marco regulatório também tem implicações jurídicas diretas. Decisões recentes da Justiça do Trabalho têm reconhecido o burnout como doença ocupacional e responsabilizado empresas com indenizações e pensionamentos vitalícios.
Mulheres mais afetadas
Com 83.321 afastamentos, Minas Gerais concentrou mais de 15% do total nacional. Um dado adicional chama atenção: 63,46% desses benefícios foram concedidos a mulheres, o que aponta para um recorte estrutural que exige resposta além de campanhas de conscientização.
“Esses números têm endereço. Têm CNPJ. Por trás de cada afastamento, há uma história que a empresa não ouviu a tempo. Um colaborador que sinalizou, de alguma forma, que algo não estava bem”, afirma Filizzola.
Ansiedade e episódios depressivos
Em todo o Brasil, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por transtornos mentais em 2025, crescimento de 15,66% em relação a 2024. Ansiedade e episódios depressivos lideraram os diagnósticos.
Os casos de burnout triplicaram no período, passando de 1.760 para quase 7.000 registros, segundo levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho com base em dados do INSS.
Um dos fatores que explicam os altos índices de afastamento é o silêncio dentro das organizações. Segundo a pesquisa Trabalho Sem Assédio 2025, conduzida pela Think Eva em parceria com o LinkedIn, quase metade dos profissionais brasileiros já vivenciou assédio moral no trabalho. Mas 48,5% não denunciaram, principalmente por medo de retaliação ou demissão.
“Quando a escuta organizacional não é percebida como confiável, os riscos deixam de ser comunicados e passam a evoluir silenciosamente. Sem mecanismos de escuta contínua, as empresas perdem a capacidade de identificar sinais precoces: mudanças de comportamento, queda de engajamento, conflitos não verbalizados. Escutar não é apenas responder a um problema. É preveni-lo”, ressalta Filizzola.
FONTE: HOJE EM DIA

